
O R&B já existia desde, pelo menos, a metade da década de 40, mas foi nos anos 50 que ele tomou de assalto o mundo, não apenas para produzir hits, mas para criar de suas entranhas o doo-wop, o rock'n'roll e a soul music e ser, assim, o ritmo musical mais influente do século XX. 1953 foi um ano importante para a história da música negra não porque foi propriamente o início de um movimento ou algo que o valha, mas porque foi quando a quantidade e a qualidade começaram a se encontrar e tudo que se passou a ouvir a partir de então já estava lá nos vários nascedouros espalhados por gravadoras de todos os EUA que produziam, agora quase que em massa, produtos para uma juventude que se mostrava extremamente aberta e interessada. Costuma-se dizer que os anos 50 e o rock'n'roll inventaram a juventude. Aqui listo os mais importantes singles daquele ano, espero que tenham curiosidade e espírito aberto para procurá-los por aí e espero que curtam muito. São obras de uma só vez atemporais e significativas daquela época, e são, sobretudo, canções deliciosas.
1. "HOUND DOG", com Big Mama Thornton.
A grande Mama Thornton, grande em ambos os sentidos, trabalhou aqui com o que dizem que Elvis inventou dois ou três anos depois. O garoto de Memphis merece todo nosso respeito, mas sua versão é polida demais se comparada a essa pérola bruta, dessa que é mais convincentemente uma canção feita para uma mulher cantar. De qualquer forma, um clássico absoluto em ambas as versões e a fotografia da transformação do R&B naquilo que chamariam de rock'n'roll. E os berros e latidos de Big Mama são um bônus irrecusável.
2. "MESS AROUND", com Ray Charles.
O primeiro single de sucesso de um dos mais importantes artistas americanos de todos os tempos. O pai da soul music nos traz aqui uma simples canção festiva apenas como um divertido petisco antes da verdadeira revolução que ele começaria no ano seguinte com I've Got a Woman, onde misturou gospel e R&B e, às custas de ser condenado ao inferno, praticamente criou a soul music aqui na Terra. Mas como todo mundo fazia o Mess Around naquele ano, ficamos pra sempre com um delicioso piano boogie-woogie e aquela voz maravilhosa nos transportando a mundos e épocas muito legais.
3. "(MAMA) HE TREATS YOUR DAUGHTER MEAN", com Ruth Brown.
Assim como o single acima, outra pérola produzida na Atlantic Records do turco Ahmet Ertegun, esse importante e delicioso artefato marcou história e é tido por muita gente bacana como o grande crossover que criou e esfregou na cara do mundo o que tiveram que dar um nome, esse tal de rock'n'roll. A canção, todavia, não é peça de museu como o início de várias outras correntes musicais, é, isso sim, a mais sexy, divertida e esperta canção daquele ano. O branco e o negro começam a se juntar na música americana e lá está Ruth Brown delatando o marido malvado para a sogra dele.
4. "GEE", com o grupo The Crows.
O doo-wop já estava nascido, mas apenas como um pássaro recém-saído de um ovo, claudicante e abrindo os olhos na virada dos 40 para os 50. É neste single contagiante que vemos esse pássaro alçar seu primeiro voo. Não por coincidência os nomes das bandas de doo-wop em geral eram nomes de pássaros. Os vocais eram, como seria praxe entre eles, um primor absoluto de energia e técnica, mas há que se ressaltar um absurdamente moderno solo de guitarra com toques de jazz de Tiny Grimes. O doo-wop nos daria em seus dez anos de vida canções mais belas e mais importantes, mas é aqui que o pop negro se viu no espelho e gostou de sua perfeição.
5. "MONEY HONEY", com o grupo The Drifters.
O primeiro sucesso de uma banda bastante influente que ainda nos daria as maravilhosas carreiras solo de Clyde McPhatter, Ben E. King e Bobbie Hendricks. Essa também influente canção bebeu das misturas entre o nascente doo-wop com a country music e o R&B puro. Ter sido cantada por Elvis e Beatles anos depois apenas sugere que havia um lago onde aqueles deuses se banharam e que também nós, meros mortais, podemos ir lá de vez em quando. Um dos melhores singles de todos os tempos, com o maravilhoso vocal de McPhatter.
6. "SOUL ON FIRE", com LaVern Baker.
Outra vez Atlantic Records, outra cantora, agora no que talvez seja a primeira de uma longa e maravilhosa lista daquilo que virou quase que uma instituição americana: a balada soul. LaVern Baker e seu maravilhoso grupo trazem aquela luminosidade, aquele calor das músicas lentas dos negros que sabiam misturar elegância e sofisticação com pura simplicidade e discurso direto. A alma queimando no fogo ao som das arrepiantes divisões silábicas de Miss Baker.
7. "CRYING IN THE CHAPPEL", com o grupo The Orioles.
O grupo The Orioles já vinha colecionando sucessos desde a década anterior, mas foi com esse doo-wop gospel que eles alcançaram seu ponto máximo. Uma canção tranquila e ao mesmo tempo fervorosa passada numa capela que nos traz toda a espiritualidade da música negra pré-R&B, mas num vocal então contemporâneo. A canção foi regravada por Elvis doze anos depois no que é, para muitos e humildemente para esse que vos escreve, a versão definitiva, uma vez que traz todo o fervor do rei do rock numa época em que este flertava com a música cristã. Leve seus problemas para a capela, dobre os joelhos e ore.
8. "HONEY HUSH", com Big Joe Turner.
Mais um Big nessa lista, agora aquele que veio do blues para o R&B e para a história. Uma voz realmente poderosa, com uma banda matadora. Honey Hush é repleta de humor e malícia, Big Joe fazendo as vezes de um cara insensível falando com sua garota, dizendo que não se deixa levar por suas lágrimas. A voz cheia de personalidade, o swing meio jazzy de toda a banda e um solo de sax, muitas coisas para curtir nesse clássico e Big Joe entraria para a história no ano seguinte com Shake, Rattle and Roll, mas isso já é outra postagem.
9. "GOING TO THE RIVER", com Fats Domino.
Diretamente de New Orleans, o homem gordo com cara de gato Fats Domino e um single tão delicioso, tão blues, tão Mardi Gras, que parece uma cápsula onde a gente pode entrar e morar lá dentro. Grande pianista, grande cantor, um dos maiores compositores da década e um dos primeiros negros a cruzar da parada R&B para a pop, em 50 com Fat Man e em 53 com esse clássico e muitas vezes depois. Se o rock'n'roll não fosse o bastardo que foi, com o pai mais ignorado da história, eu diria para coletarem o DNA desse cara. Pra mim, ele é o pai.
10. "A SUNDAY KIND OF LOVE", com o grupo The Harptones.
Sofisticação e doo-wop. Uma introdução com um órgão de igreja e somos carregados para um mundo de sonhos nessa canção que, ao contrário das anteriores aqui, não foi propriamente um hit. Os Harptones de Nova Iorque traziam uma influência do jazz para o seu doo-wop e, mesmo não tendo vendido muito na época, por conta de uma pequena gravadora e débil distribuição, foram influentes sobre o que viria a seguir, garantindo seu lugar na história e nessa lista. E a canção é belíssima, com um arranjo vocal imaculado.
11. "GOLDEN TEARDROPS", com o grupo The Flamingos.
Outro single que não foi exatamente um hit na época, mas que, relançado cinco anos depois encontrou seus amantes no já consolidado mundo do doo-wop. Trata-se aqui de uma atmosférica canção que sobreviveu ao tempo, marco inicial daquela que talvez foi a maior banda de doo-wop, responsável pelo maior clássico do movimento, I Only Have Eyes for You, anos depois.
Quem não entende nada de música geralmente só sabe julgar a produção ou a engenharia de som de uma canção, em poucas palavras se ela parece "atual" ou "velha", como se apenas aí estivesse a possibilidade dela ser boa ou ruim, mas perde, assim, a deliciosa chance de encher sua alma com sentimentos e sensações tão indescritivelmente superiores ao que se pode ter quando miseravelmente atrelado apenas à arte, à literatura ou ao entretenimento momentâneo. O mundo, de qualquer forma, sempre foi árido de pessoas abertamente sensíveis e sempre será, pessoas sensíveis e inteligentes saboreiam o texto de Shakespeare, os outros prestam atenção no figurino e nos cortes de cabelo do elenco. Quando saem do teatro, aqueles são tocados pela verdadeira arte humana do bardo inglês, os outros querem apenas comer um hamburger que não tenha sido feito em 1616. Se você conhece alguém que tem problemas com filmes em preto e branco, gravações musicais dos anos 40 e 50, peças e obras dos séculos passados, sinta pena. Pena é melhor que ódio.
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