
Rhythm & Blues. Anos 70. A perda da inocência diante de um mundo corroído por drogas, sexo, políticos sujos e espiritualistas gananciosos. Não muito diferente do que vivemos hoje em dia, não é mesmo? A grande diferença é que naqueles tempos existia um jovem cego visionário (cego visionário?!) chamado Stevie e, acreditem, ninguém olhou tão bem para o futuro quanto ele neste disco. "Too High" fala sobre o "paraíso superficial" de drogados em frente a TV falando besteiras até que a menina morre e seu namorado apenas sabe dizer que ela estava alta demais, os sintetizadores e o andamento complexo de uma linha de baixo fantástica tornam este lamento muito mais frenético do que propriamente triste. Em "Visions", agora sim uma triste balada pontuada por um violão, Stevie pergunta se pode existir um lugar realmente lindo ou se temos que bater nossas asas e voar para as visões em nossas mentes. O escapismo dos verdadeiros artistas aqui confrontado dentro de uma obra que nos expõe e nos propõe, afinal ele diz que sabe "que as folhas são verdes, elas apenas mudam pro marrom quando o outono chega". É chegado o momento do mini-épico funky "Living for the City", clássico single que alcançou os primeiros postos das paradas da Billboard, em que o autor narra a história de um menino pobre nascido no Mississipi descrevendo cada membro de sua família, cada chaga aberta nas feridas de ser negro e pobre e sua ida a Nova York, seu desespero, desemprego e desvio. Um clássico absoluto com os teclados e vocais mais contagiantes já ouvidos. "Golden Lady" nos traz do abismo das realidades urbanas direto para os braços de uma dama dourada com um toque de chuva e raios de sol que fazem todas as flores crescerem num sorriso. Contagiante e hipnótica, essa canção nos dá alento e conforto na ideia que temos de que o amor nos salva, nos pacifica. "Higher Ground", outro single número um nas paradas, é uma poderosíssima chamada de consciência para que todos façamos nossa parte nessa tapeçaria social já que Ele (você sabe quem é Ele, não sabe?) nos deixou tentar de novo. Uma das canções mais marcantes de sua carreira diz que Deus, que é seu único e verdadeiro amigo, vai mostrar a você as alturas. Poderia ser só uma canção gospel imbecil como essas que nos perseguem por aí, mas é produto de uma sensibilidade superior que pode até se dar ao luxo de falar sobre o divino, por ser ele próprio instrumento do divino. "Jesus Children of America", mesmerizantemente funky abre com um Hello Jesus para falar diretamente com Ele sobre a falta de fé e espiritualidade ao redor. "All in Love is Fair", uma convencional balada para voz e piano, mas que o absurdamente emocionado vocal de Stevie trata de elevar a esferas celestiais, nos jogando naquele mundo de relacionamentos desfeitos que nos deixam cicatrizes com as quais temos que conviver mas que ele, como um escritor, pode pegar sua caneta novamente para limpar suas tristezas em palavras e em sons. "Don't You Worry 'Bout a Thing", uma leitura pessoal de ritmos latinos como a salsa, nos faz lembrar do interesse sempre recorrente de Stevie pelas culturas estrangeiras e sua capacidade ímpar de romper barreiras geográficas ou musicais. Nesta canção alegre e otimista, Stevie como um irmão mais velho, nos diz para não nos preocuparmos tanto, que há sempre a chance de mudarmos e que ele estará do nosso lado. Não se trata de calma depois da tormenta. Neste disco, não há tormentas e não há calma, apenas lucidez e talento. Este disco clássico se encerra com a faixa "He's Misstra Know It All", denunciando a falta de ética na política, a destruição das esperanças populares e usando o exemplo Nixon da época para falar de algo muito mais frequente e universal que é a corrupção espiritual que leva a todas as outras corrupções. Baladas soul de arrepiar, canções funky cheias de ginga, flertes com latinidades e sintetizadores. Letras de um talentoso poder narrativo chegam por meio da voz incomparável de um cantor que podia fazer firulas vocais sem nunca parecer um palhaço mecânico como vários de seus imitadores nas décadas seguintes. Ao contrário, quando essa voz nos chega, vem com a autoridade não apenas de um gênio da música negra, mas de um porta-voz de todos nós, alguém que pode denunciar desde pequenos traficantes até o próprio Presidente Nixon. Quincy Jones uma vez disse sobre Stevie que era a alma mais pura e doce que ele havia conhecido. Doce sim, mas com a crítica cortante de um artista que sofre por todos. De qualquer forma, estamos falando em R & B, e aqui o sofrimento não é algo cheio de pose como a música branca pós-80, mas sim um sem-número de constatações e contestações que nos deixam no fim com uma real e nem um pouco idiota sensação de otimismo. Afinal, um mundo onde um ser humano é capaz de compor, cantar e tocar todos os instrumentos em um disco como Innervisions não pode ser um lugar tão ruim assim.
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