
Os filmes de blaxploitation estavam em voga quando Curtis Mayfield foi chamado para compor a trilha sonora de Superfly. Shaft, musicado por Issac Hayes no ano anterior, além do incrível sucesso comercial, havia ganho todos os prêmios possíveis e imagináveis (até o Oscar). Se o filme Superfly é apenas parte de um movimento que tinha lá suas limitações artísticas, o mesmo não pode ser dito do álbum que figura ao lado de What's Going On e Innervisions, de Marvin Gaye e Stevie Wonder, respectivamente, como a santíssima trindade da soul music dos 70 (ou, porque não, de todos os tempos). Transcendendo os próprios temas da película, Curtis toca aqui, com veemência e elegância, em muitas feridas urbanas e faz dessa obra uma perfeita fotografia não apenas da vida nas ruas e nos guetos, mas da própria musicalidade negra nos anos 70. É um disco influente e atemporal e, como tal, gerou um sem-número de cópias que se mostraram rapidamente datadas, mas que nunca eclipsaram o enorme poder desta obra. A partir daqui guitarras wah-wah, orquestrações, a combinação funk e jazz e temáticas realistas e urbanas iam fazer parte até mesmo dos seriados de tevê da época (Kojak, Baretta, Starsky & Hutch). O disco é, sobretudo, um libelo contra as drogas e os efeitos extremamente destruidores delas sobre a espiritualidade humana. Todavia, o enorme talento de Curtis para tocar em assuntos delicados faz com que consigamos reter seus pensamentos sem um traço sequer de moralismo. Curtis era um compositor visionário que, correndo o risco de ser relegado à posição de profeta pessimista, antecipou as pragas que assolariam o mundo cada vez mais. Infelizmente, as mensagens anti-drogas do disco continuam atuais e necessárias, mais até do que em 1972.
O álbum abre com a faixa "Little Child, Runnin' Wild", onde congas e um órgão são seguidos por uma guitarra com efeitos fuzz, até a entrada magistral de uma orquestra, singularmente arranjada, um baixo pulsante e cheio de ginga e um vocal em falsete cheio de mágoa falando de uma criança que nunca sorri, filho de uma família desfeita, filho da tristeza e da loucura. Enquanto no fundo da mente desse menino ele só queria não estar ali, as guitarras fazem um wah-wah maravilhoso, um sax passeia sobre um dos mais suingados baixos da história e até harpas são ouvidas ao fundo. O menino agora é um homem aplicando em suas veias as drogas sem as quais não consegue viver, ele sente dor, cada dia mais forte, sofre pressões do traficante e vê sua mãe chorar, mas não consegue fazer nada. A mais contundente faixa de abertura encerra com um quarteto de cordas sombrio num fading que nos dá a sensação da tristeza de uma vida perdida. "Pusherman", a segunda faixa e terceiro single, é um retrato do traficante, o príncipe do gueto, o senhor das ruas de uma América negra e pobre. Um sarcasmo refinado foi escondido nas entrelinhas da forma mais desolada que um artista poderia, uma vez que Curtis constrói em primeira pessoa a visão cool de um passador de droga, alguém que, da noite pro dia, se transforma em mãe, pai, doutor, mas que tem a consciência de que é só aquele negro ali num beco escuro. Ele tem coca, erva, mulheres e uma grande certeza de quem ele é, mas de repente começam algumas dúvidas sobre se não seria melhor ele largar tudo isso e vemos por trás daquela fachada de príncipe do gueto alguém perdido e com péssima auto-estima. O entrelaçamento das congas com o baixo cada vez mais funk-jazz, o vocal cheio de certezas que vai se tornando cheio de dúvidas, as guitarras (uma mais esparsa e outra cheia de efeitos ruminando pelos cantos) que levam o ritmo do vocal adiante, deixando a cozinha lenta costurando um pequeno diálogo funky. A terceira faixa, e primeiro single, "Freddie's Dead" é o pico de um disco composto apenas de pontos altos. Como o próprio título sugere, um rapaz chamado Freddie (amigo do protagonista do filme) morreu por causa das drogas, mas Curtis canta tão cheio de indignação e terror com que vê ao redor, que Freddie parece mais uma personalização do mundo, daquele mundo que ele como artista pleno provavelmente acreditava ser bom quando criança e agora se esfarelava diante de seus olhos com coisas tão mesquinhas e sujas. Ele pede que olhemos para o seu Freddie/mundo morto e na parte mais emocionante diz que é difícil entender que havia amor naquele homem, mas todos apenas usaram e abusaram dele e agora é só um drogado a menos por aí. No mais próximo do que poderia soar didático, Curtis chega a nos desafiar dizendo "se você quer ser um junkie, lembre-se que Freddie está morto", entretanto, o que sentimos vindo através de sua maravilhosa voz é de uma verdade e de uma preocupação humanitária tão legítima e imensa que seria capaz de calar todos se colocado nos alto-falantes do mundo. Naquele que talvez seja o mais belo par de frases jamais cantado, Curtis diz, num misto de revolta e amor, que podemos lidar com foguetes e sonhos, mas não com a realidade e ele termina esse clássico absoluto pedindo por um pouco de paz de espírito e fazendo um incrível dueto entre sua voz e uma flauta cheia de groove como todo o intrumental funk-jazz onde a incrível orquestra de Johnny Pate sublinha as partes mais doloridas da letra. A quarta faixa, "Junkie Chase", curta e instrumental, é tão influente quanto as demais canções, sobretudo se percebermos que sua combinação de um wah-wah enfezado com orquestra, sopros, piano e um baixo suingante e até mesmo um quê de latinidade se tornaria imediatamente o padrão para as trilhas sonoras de filmes policiais e seriados de tevê. Musicalmente, como em todo o disco, somos jogados naquilo que imaginamos ser uma rua barra-pesada nos anos 70 e, como uma pintura, a faixa consegue nos trazer um pouco do filme e da realidade a que eles retrataram. "Give Me Your Love (Love Song)", apesar de dizer no título que é uma canção de amor, não se trata de uma balada romântica e lenta, é, antes, suingada e sensual, e dá um contraponto entre alguém que ao mesmo tempo se entrega e é entregue pelos outros aos abismos das drogas, mas que é capaz de querer muito uma mulher e pedir por seu amor. A canção não é triste, de maneira nenhuma, mas nos traz aquela sensação estranha de que a vida às vezes pode ser só isso: um disco com faixas muito duras em que a faixa do meio é o único e solitário momento de amor. E assim, voltamos ao inferno das drogas na enfática sexta faixa, "Eddie You Should Know Better", uma aguda observação sobre a desintegração de um caráter. Um funk orquestrado com um belo trabalho de bateria e percussão (com uns címbalos que ouvimos por toda a canção e mais acentuadamente no final). Acompanhamos a preocupação dos parentes e amigos, as lágrimas, os medos e a cegueira das drogas levando a uma tristíssima frase final em que Curtis diz não saber se ele vai conseguir desta vez. A propósito, todo o álbum é protegido do que seria uma tristeza alienante, aquela que apenas nos faria chorar ou ficar de mal com o mundo por algumas horas, ou simplesmente cortar os pulsos. Ao contrário, embalado pela música colorida de seu soul-funk-jazz, Curtis nos propõe apenas o abrir dos olhos, não a inundação dos mesmos com o choro estéril. Nunca esqueçamos que esse era o compositor que melhor soube transformar nos anos 60 as angústias do movimento pelos direitos civis dos negros americanos e que se via agora angustiado por um inimigo muito mais perigoso que se infiltrava nas narinas e nas veias de seus irmãos até congelar suas mentes e inutilizar completamente seus espíritos. "No Thing On Me (Cocaine Song)", a sétima faixa, tem um poder imenso e, se lançada como single, teria certamente sido um sucesso como Superfly, Pusherman e Freddie's Dead. Aqui, Curtis decide continuar atacando o mundo das drogas, só que por uma outra frente, a frente de cantar cheio de auto-confiança e certeza as alegrias de viver limpo sem nunca se drogar. Uma canção que nem poderia ser considerada simplesmente otimista, porque ultrapassa essa mera formulação, que parece tão dependente de seu adjetivo contrário. É uma canção que nos faz lembrar de onde veio o jovem Curtis de quinze anos antes: da igreja e da música gospel (a verdadeira), sempre presentes em sua obra, mas filtradas por um humanismo que exige dos grandes talentos a abertura total de seu compasso criativo. O trabalho do piano e o interplay entre a orquestra e os sopros jogam essa canção tão pra cima que sentimos e acreditamos que essa realmente é a vida que vale a pena, a vida natural, dizer pra si mesmo que aquele homem (o traficante) não tem o poder de colocar nada dentro do meu corpo, da minha mente, do meu espírito. Outra faixa instrumental, "Think" inicia meio folk num diálogo entre guitarra e xilofone, mas uma bateria e depois piano, orquestra e percussão nos levam para um blues bem leve, sopros trazem um tema principal que será pontuado pela orquestra, até que um saxofone solo muda o andamento para um blues mais tradicional para, novamente, trazer o tema dos sopros numa sensação incomum de serenidade. Última faixa do álbum, e segundo single lançado, "Superfly" começa com aquele baixo suingante, as congas e a guitarra wah-wah que se tornam então a marca registrada do álbum. A letra bate nesse mundo que possibilita o reinado das drogas, enfiando o dedo sarcasticamente numa ferida raramente tocada: a necessidade humana de se querer diferente e cool, de passar aos outros uma imagem da hora, até que perdemos nossa própria identidade e a trocamos por uma vitrine de maneirismos e poses. Só sabemos que queremos ser diferentes do resto, mas o tempo está passando e não é assim que seremos felizes. Curtis foi um artista excepcional, um humanista em prol da música e um músico sempre em função do humanismo. Sua obra é digna de uma atenção muito especial, não apenas pela maestria exibida tanto nos recursos da poética quanto da musicalidade, mas sobretudo, porque em suas canções habita uma combinação ímpar de lucidez e carinho.
Curta Curtis porque a vida é curta!




