sábado, 19 de junho de 2010

ÁLBUNS CLÁSSICOS DO R&B Nº 3 - SUPERFLY (1972) - CURTIS MAYFIELD



Os filmes de blaxploitation estavam em voga quando Curtis Mayfield foi chamado para compor a trilha sonora de Superfly. Shaft, musicado por Issac Hayes no ano anterior, além do incrível sucesso comercial, havia ganho todos os prêmios possíveis e imagináveis (até o Oscar). Se o filme Superfly é apenas parte de um movimento que tinha lá suas limitações artísticas, o mesmo não pode ser dito do álbum que figura ao lado de What's Going On e Innervisions, de Marvin Gaye e Stevie Wonder, respectivamente, como a santíssima trindade da soul music dos 70 (ou, porque não, de todos os tempos). Transcendendo os próprios temas da película, Curtis toca aqui, com veemência e elegância, em muitas feridas urbanas e faz dessa obra uma perfeita fotografia não apenas da vida nas ruas e nos guetos, mas da própria musicalidade negra nos anos 70. É um disco influente e atemporal e, como tal, gerou um sem-número de cópias que se mostraram rapidamente datadas, mas que nunca eclipsaram o enorme poder desta obra. A partir daqui guitarras wah-wah, orquestrações, a combinação funk e jazz e temáticas realistas e urbanas iam fazer parte até mesmo dos seriados de tevê da época (Kojak, Baretta, Starsky & Hutch). O disco é, sobretudo, um libelo contra as drogas e os efeitos extremamente destruidores delas sobre a espiritualidade humana. Todavia, o enorme talento de Curtis para tocar em assuntos delicados faz com que consigamos reter seus pensamentos sem um traço sequer de moralismo. Curtis era um compositor visionário que, correndo o risco de ser relegado à posição de profeta pessimista, antecipou as pragas que assolariam o mundo cada vez mais. Infelizmente, as mensagens anti-drogas do disco continuam atuais e necessárias, mais até do que em 1972.
O álbum abre com a faixa "Little Child, Runnin' Wild", onde congas e um órgão são seguidos por uma guitarra com efeitos fuzz, até a entrada magistral de uma orquestra, singularmente arranjada, um baixo pulsante e cheio de ginga e um vocal em falsete cheio de mágoa falando de uma criança que nunca sorri, filho de uma família desfeita, filho da tristeza e da loucura. Enquanto no fundo da mente desse menino ele só queria não estar ali, as guitarras fazem um wah-wah maravilhoso, um sax passeia sobre um dos mais suingados baixos da história e até harpas são ouvidas ao fundo. O menino agora é um homem aplicando em suas veias as drogas sem as quais não consegue viver, ele sente dor, cada dia mais forte, sofre pressões do traficante e vê sua mãe chorar, mas não consegue fazer nada. A mais contundente faixa de abertura encerra com um quarteto de cordas sombrio num fading que nos dá a sensação da tristeza de uma vida perdida. "Pusherman", a segunda faixa e terceiro single, é um retrato do traficante, o príncipe do gueto, o senhor das ruas de uma América negra e pobre. Um sarcasmo refinado foi escondido nas entrelinhas da forma mais desolada que um artista poderia, uma vez que Curtis constrói em primeira pessoa a visão cool de um passador de droga, alguém que, da noite pro dia, se transforma em mãe, pai, doutor, mas que tem a consciência de que é só aquele negro ali num beco escuro. Ele tem coca, erva, mulheres e uma grande certeza de quem ele é, mas de repente começam algumas dúvidas sobre se não seria melhor ele largar tudo isso e vemos por trás daquela fachada de príncipe do gueto alguém perdido e com péssima auto-estima. O entrelaçamento das congas com o baixo cada vez mais funk-jazz, o vocal cheio de certezas que vai se tornando cheio de dúvidas, as guitarras (uma mais esparsa e outra cheia de efeitos ruminando pelos cantos) que levam o ritmo do vocal adiante, deixando a cozinha lenta costurando um pequeno diálogo funky. A terceira faixa, e primeiro single, "Freddie's Dead" é o pico de um disco composto apenas de pontos altos. Como o próprio título sugere, um rapaz chamado Freddie (amigo do protagonista do filme) morreu por causa das drogas, mas Curtis canta tão cheio de indignação e terror com que vê ao redor, que Freddie parece mais uma personalização do mundo, daquele mundo que ele como artista pleno provavelmente acreditava ser bom quando criança e agora se esfarelava diante de seus olhos com coisas tão mesquinhas e sujas. Ele pede que olhemos para o seu Freddie/mundo morto e na parte mais emocionante diz que é difícil entender que havia amor naquele homem, mas todos apenas usaram e abusaram dele e agora é só um drogado a menos por aí. No mais próximo do que poderia soar didático, Curtis chega a nos desafiar dizendo "se você quer ser um junkie, lembre-se que Freddie está morto", entretanto, o que sentimos vindo através de sua maravilhosa voz é de uma verdade e de uma preocupação humanitária tão legítima e imensa que seria capaz de calar todos se colocado nos alto-falantes do mundo. Naquele que talvez seja o mais belo par de frases jamais cantado, Curtis diz, num misto de revolta e amor, que podemos lidar com foguetes e sonhos, mas não com a realidade e ele termina esse clássico absoluto pedindo por um pouco de paz de espírito e fazendo um incrível dueto entre sua voz e uma flauta cheia de groove como todo o intrumental funk-jazz onde a incrível orquestra de Johnny Pate sublinha as partes mais doloridas da letra. A quarta faixa, "Junkie Chase", curta e instrumental, é tão influente quanto as demais canções, sobretudo se percebermos que sua combinação de um wah-wah enfezado com orquestra, sopros, piano e um baixo suingante e até mesmo um quê de latinidade se tornaria imediatamente o padrão para as trilhas sonoras de filmes policiais e seriados de tevê. Musicalmente, como em todo o disco, somos jogados naquilo que imaginamos ser uma rua barra-pesada nos anos 70 e, como uma pintura, a faixa consegue nos trazer um pouco do filme e da realidade a que eles retrataram. "Give Me Your Love (Love Song)", apesar de dizer no título que é uma canção de amor, não se trata de uma balada romântica e lenta, é, antes, suingada e sensual, e dá um contraponto entre alguém que ao mesmo tempo se entrega e é entregue pelos outros aos abismos das drogas, mas que é capaz de querer muito uma mulher e pedir por seu amor. A canção não é triste, de maneira nenhuma, mas nos traz aquela sensação estranha de que a vida às vezes pode ser só isso: um disco com faixas muito duras em que a faixa do meio é o único e solitário momento de amor. E assim, voltamos ao inferno das drogas na enfática sexta faixa, "Eddie You Should Know Better", uma aguda observação sobre a desintegração de um caráter. Um funk orquestrado com um belo trabalho de bateria e percussão (com uns címbalos que ouvimos por toda a canção e mais acentuadamente no final). Acompanhamos a preocupação dos parentes e amigos, as lágrimas, os medos e a cegueira das drogas levando a uma tristíssima frase final em que Curtis diz não saber se ele vai conseguir desta vez. A propósito, todo o álbum é protegido do que seria uma tristeza alienante, aquela que apenas nos faria chorar ou ficar de mal com o mundo por algumas horas, ou simplesmente cortar os pulsos. Ao contrário, embalado pela música colorida de seu soul-funk-jazz, Curtis nos propõe apenas o abrir dos olhos, não a inundação dos mesmos com o choro estéril. Nunca esqueçamos que esse era o compositor que melhor soube transformar nos anos 60 as angústias do movimento pelos direitos civis dos negros americanos e que se via agora angustiado por um inimigo muito mais perigoso que se infiltrava nas narinas e nas veias de seus irmãos até congelar suas mentes e inutilizar completamente seus espíritos. "No Thing On Me (Cocaine Song)", a sétima faixa, tem um poder imenso e, se lançada como single, teria certamente sido um sucesso como Superfly, Pusherman e Freddie's Dead. Aqui, Curtis decide continuar atacando o mundo das drogas, só que por uma outra frente, a frente de cantar cheio de auto-confiança e certeza as alegrias de viver limpo sem nunca se drogar. Uma canção que nem poderia ser considerada simplesmente otimista, porque ultrapassa essa mera formulação, que parece tão dependente de seu adjetivo contrário. É uma canção que nos faz lembrar de onde veio o jovem Curtis de quinze anos antes: da igreja e da música gospel (a verdadeira), sempre presentes em sua obra, mas filtradas por um humanismo que exige dos grandes talentos a abertura total de seu compasso criativo. O trabalho do piano e o interplay entre a orquestra e os sopros jogam essa canção tão pra cima que sentimos e acreditamos que essa realmente é a vida que vale a pena, a vida natural, dizer pra si mesmo que aquele homem (o traficante) não tem o poder de colocar nada dentro do meu corpo, da minha mente, do meu espírito. Outra faixa instrumental, "Think" inicia meio folk num diálogo entre guitarra e xilofone, mas uma bateria e depois piano, orquestra e percussão nos levam para um blues bem leve, sopros trazem um tema principal que será pontuado pela orquestra, até que um saxofone solo muda o andamento para um blues mais tradicional para, novamente, trazer o tema dos sopros numa sensação incomum de serenidade. Última faixa do álbum, e segundo single lançado, "Superfly" começa com aquele baixo suingante, as congas e a guitarra wah-wah que se tornam então a marca registrada do álbum. A letra bate nesse mundo que possibilita o reinado das drogas, enfiando o dedo sarcasticamente numa ferida raramente tocada: a necessidade humana de se querer diferente e cool, de passar aos outros uma imagem da hora, até que perdemos nossa própria identidade e a trocamos por uma vitrine de maneirismos e poses. Só sabemos que queremos ser diferentes do resto, mas o tempo está passando e não é assim que seremos felizes. Curtis foi um artista excepcional, um humanista em prol da música e um músico sempre em função do humanismo. Sua obra é digna de uma atenção muito especial, não apenas pela maestria exibida tanto nos recursos da poética quanto da musicalidade, mas sobretudo, porque em suas canções habita uma combinação ímpar de lucidez e carinho.
Curta Curtis porque a vida é curta!

terça-feira, 15 de junho de 2010

OS GRANDES HITS R&B DE 1968




1968. O ano das passeatas, das revoluções de pensamento, das drogas, do sexo liberado e do rock psicodélico. 1968. O ano que não terminou. 1968. o ano que... ah, vamos parar com essa bobajada toda e ir direto ao que interessa: enquanto os jovens burgueses entediados de tudo se entregavam a isso que virou a caricatura daquela era hipponga, os artistas de R&B faziam o que sabem fazer melhor. Discurso trotskista? Não: Música! Aqui vai a lista das canções mais importantes daquele ano, são canções que você pode ouvir sem precisar de um chá de cogumelo ou de um retrato de Mao Tsé Tung ou Che Guevara. Não, meu amigo, são músicas para se ouvir acordado. Acordado para a verdadeira vida com as verdadeiras emoções.

"Sitting on The Dock Of The Bay", com Otis Redding.

Single póstumo deste que talvez tenha sido o soulman dos anos 60. Única vez que atingiu o primeiro posto das paradas, lamentavelmente Otis não colheu os louros da fama desta maravilhosa pérola. Uma canção que fala sobre estar sozinho, longe de casa, pensando com os botões. Otis vinha da histórica apresentação no Festival de Monterey e decidiu tirar umas férias do showbiz vivendo naquela península em uma casa-barco. Testamento poético de um grande artista.

"I Heard It Through The Grapevine", com Marvin Gaye.

Uma das grandes jóias do repertório desse sensacional soulman e de toda a história da Motown, essa canção sobre a descoberta de uma traição tem a combinação certa entre uma letra bem escrita, com ótimas rimas e expressões idiomáticas e uma melodia ao mesmo tempo fácil e elegante, sofisticada, com um groove delicioso, meio voodoo, meio pura hipnose, e aquele vocal atormentado, expressando medo e dúvida nessa devastadora canção sobre um coração sendo partido.

"Everyday People", com o grupo Sly & The Family Stone.

O mais próximo que uma canção desta lista vai chegar daquele espírito hippie mencionado acima, Everyday People, todavia, é focada no lado positivo e humanista dos discursos de então e não nas combinações químico-anarco-concretistas que mais alienam o ouvinte do que efetivamente pregam a paz. Sentimos muita vontade de dançar sob aquela vibração maravilhosa de um sentimento universal sendo pregado. Uma pregação de tolerância e harmoniosa convivência que nos faz pular e cantar feito um negão. De certa forma, essa é a melhor canção de todos os tempos. Afinal, que intenção melhor poderia ter um artista ao criar?

"Think", com Aretha Franklin.

Quando Aretha e suas potentes backing vocals cantam Freedom! Freedom! no refrão deste contagiante single é como se essa palavra tivesse sido criada especialmente para ser usada nesse momento, tão grande e reveladora é a sensação que se tem. Aretha é um paradigma não apenas para as cantoras de R&B, mas para todo e qualquer cantor que pensa em ser verdadeiro e intenso. Perto dela, as cantoras de hoje parecem bonecas de cera, sempre com o mesmo olhar e o mesmo sorriso. Aretha não precisa fazer bocas e poses e grita não para exibir técnica vocal (que tem, e muita) mas para que a gente sinta aquilo que ela está sentindo. Pense!

"Son Of A Preacher Man", com Dusty Springfield.

O que uma loira inglesa está fazendo num blog de música negra norte-americana? O que ela sabe fazer de muito, muito bom: Rhythm & Blues. Essa canção extremamente cool tem muitos detalhes para amarmos: o riff inicial, a mistura de sexo e religiosidade espertamente usada na letra, farelos de jazz, de funk, até de country. Poucas canções daquele ano sobreviveram tão bem ao tempo quanto esta. Dusty está no seu auge aqui, gravando em Memphis com músicos de primeira linha e a cabeça no filho do pastor.

"You're All I Need To Get By", com Marvin Gaye & Tammi Terrell.

Duas vozes se encontram e se complementam. Muito rapidamente, uma dessas vozes se vai para sempre. Em tão pouco tempo juntos, Marvin e Tammi legaram ao mundo alguns dos singles mais incrivelmente românticos. You're All I Need tem aquela cadência de um sonho muito colorido. Você e alguém que você nem sabe se conseguiria amar tanto, cara a cara, dizendo que nada mais é necessário, só aquela pessoa com você. Como vir da sensação maravilhosa que uma canção como essa traz, de volta para a realidade é um dos segredos que minha obsessão por música ainda não deixa compreender. Marvin e Tammi: vocês são tudo o que eu preciso para viver!


"Do You Know the Way to San Jose?", com Dionne Warwick.

Meio bossa-nova, meio Motown, muito pop. Mais um single delicioso desse trio de escapistas pop maravilhosos: Burt Bacharach, o compositor, Hal David, o letrista, e Dionne Warwick, a cantora. A bateria tocada com vassourinha, bem brasileira, o backing vocal refrescante, uma letra sobre buscar o sucesso na Califórnia, tudo isso pode parecer frívolo, mas existe um leve sarcasmo não apenas nas entrelinhas da letra, mas no senso de estilo de Bacharach, na forma com que ele, melhor que ninguém, engana os ouvidos de quem acha, apenas acha, que está assobiando uma bobagem qualquer.

"(Sweet Sweet Baby) Since You've Been Gone", com Aretha Franklin.

Mais uma pedra preciosa. Uma sessão de sopros antológica e os habitualmente impecáveis backing vocals fazem a cama para Aretha berrar sua saudade. Produção de Jerry Wexler e arranjos de Arif Mardin, que apenas deixavam Aretha brincar no estúdio com seu piano, interagindo com os demais músicos e simplesmente gravavam tudo e pouco, muito pouco, não era realmente usado. Primeiro lugar nas paradas como passou a ser praxe entre os singles de Aretha por pelo menos uma década.

"Say It Loud: I'm Black and I'm Proud", com James Brown.

O título é muito claro e todo o resto é muito, muito negro. Um hino de auto-afirmação, sem arrogância, mais como um mantra que traz junto com o orgulho uma sensação de bem-estar. Parceria entre o próprio Brown e seu arranjador Pee Wee Ellis, aqui está na linguagem muito simples do padrinho do soul o que ele deve ter aprendido do Reverendo Martin Luther King Jr. a quem dedicou essa polifonia de ritmos que alguns chamam funk. O reverendo se fora quatro meses antes deixando ao mundo um sonho de união universal que, se não plenamente vivida na prática, começaria a fermentar no caldeirão da soul music que estava por vir. James Brown, como sempre, um passo a frente.

"For Once in My Life", com Stevie Wonder.

Aquele piano, aquela bateria, aquela gaita de boca e sobretudo aquela voz. Aquela vibração, aquela sensação de que estamos voando, que podemos voar, que somos pássaros, que somos deuses, que a música é capaz de nos levar em menos de três minutos a recantos onde nenhuma outra criação humana poderia pela vida inteira. Por pelo menos uma vez em sua vida, pare tudo que está fazendo, tudo que acha importante, e ouça e sinta e respire uma canção de Stevie e depois, só depois, diga que um dia viveu.

"Tighten Up", com Archie Bell & The Drells.

Archie nos apresenta aos instrumentos e aos músicos e aquele groove intoxicante nos toma e dançar se torna inevitável. Pioneiros do som da Filadélfia, Archie e os Drells fazem aqui um funk tão delicioso, com uma vibração ao mesmo tempo frenética e serena, enquanto a guitarra e os sopros e as paradas nos fazem esquecer de tudo, Archie fica falando e falando e nós viajando e viajando.

"Ain't Got No - I Got Life", com Nina Simone.

Quando todos esperavam que essa diva do Jazz ficasse apenas repetindo milhões de vezes os mesmos standards (afinal, não é isso que as divas do jazz fazem?), essa temperamental mulher entrou de corpo e alma na discussão, via música, sobre as questões raciais. Numa década de conflitos como os anos 60, de Luther King e Malcolm X, de Ku-Klux-Klan e ativistas mostrando a cara, Nina teve a coragem para criar algumas das letras mais engajadas de todo o movimento pelos direitos civis. Gravada três dias após o assassinato do Reverendo Martin Luther King Jr., Ain't Got No - I Got Life, é uma dessas canções. Ela começa dizendo o que ela, negra, não tem, para, depois, dizer o que possui. Preste atenção!


"Ain't Nothing Like the Real Thing", com Marvin Gaye & Tammi Terrell.

A euforia de um novo romance, onde as canções pop se cruzam com os contos de fada e tudo parece tão fantástico quanto incrivelmente real. O maior dueto na história da música negra, onde o doce e o amargo se mesclaram tão bem criando uma série maravilhosa de singles, infelizmente interrompidos pela prematura morte de Tammi, metade de um dueto que, segundo o crítico Jason Ankeny "fazia as canções de amor mais singelas ressoarem com a eloquência de um soneto de Shakespeare".

"The House that Jack Built", com Aretha Franklin.

Será que é exagerado o número de singles de Aretha nesta lista? Será que é exagerado o talento que esta mulher tem? Jack construiu uma casa e agora ela está lá, com a casa e tudo dentro, menos Jack, menos o amor, mas ela esqueceu de cantar que tem também nossos ouvidos e nossas almas sempre atentos à sua voz maravilhosa.

Ouça também:

"Cloud Nine", com o grupo The Temptations.
"I Thank You", com a dupla Sam & Dave.
"Dance to the Music", com o grupo Sly & The Family Stone.
"Walk Away Renee", com o grupo The Four Tops.
"Nothing But a Heartache", com o grupo The Flirtations.
"Love Child", com o grupo The Supremes.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

1º LUGAR NA PARADA R&B - UN-THINKABLE (I'M READY) - ALICIA KEYS



Desde 22 de maio em primeiro lugar na parada R&B da Billboard, Un-Thinkable (I'm Ready), vigésimo single de Alicia Keys (não levando em conta suas participações em singles de Usher, Alejandro Sanz e Jay Z), traz um som menos orgânico e menos neo-soul do que aquele dos primeiros trabalhos. O uso do elemento eletrônico aqui, entretanto, não se resume na pasteurização habitual que se ouve por aí e, apesar das más companhias de ultimamente (celebridades de talento discutível como Beyoncé e Jay Z), pode-se dizer que Alicia Keys tem sido e ainda é a grande figura feminina do R&B desde a virada de milênio, como uma versão moderna de Aretha Franklin. Un-Thinkable traz mais do mesmo, muito embora esse mesmo seja o que ainda pode salvar a capenga cena R&B atual, senão vejamos: uma cantora de verdade (nada das gritarias pseudo-emocionadas das robôs que usam e abusam de trêmolos irritantes e efeitos vocais batidos), uma compositora de verdade (nada encomendado a burocratas da composição, tudo feito por ela própria e seus parceiros e em inteligente reverência a toda gloriosa história da música negra), uma instrumentista de verdade (se é que ainda usam instrumentos convencionais na maioria da música plástica atual) e, até isso para ajudar, uma beleza de verdade (nada dessas cantoras siliconadas que mais parecem travestis pulando na tevê). Quarto single do álbum The Element of Freedom, de 2009, trata-se aqui de uma canção de amor de letra singela mas eficiente, o clip gerou uma discussão positiva em sites como o youtube sobre relacionamento interracial, algo que, extra-música, também é muito válido, uma vez que as almas não tem cor. O canto do R&B recomenda esse single e dá ****

terça-feira, 8 de junho de 2010

ÁLBUNS CLÁSSICOS DE R&B Nº 2 - WHAT'S GOING ON (1971) - MARVIN GAYE




Considerado por muitos o melhor álbum de todos os tempos, What's Going On é daqueles queridinhos da crítica que sempre, desde o lançamento, também encontraram ressonância comercial. Um divisor de águas na história da música, esta obra-prima de Marvin Gaye não apenas é capaz de tocar corações e mentes de todo o planeta, mas também resiste ao tempo e, mais ainda, usa do decurso do tempo para crescer e envelhecer como um vinho, o melhor vinho que nós nunca realmente beberemos por inteiro.
Marvin Gaye vinha de uma carreira extremamente bem-sucedida mas que, àquela época, havia se tornado um pouco anacrônica e obsoleta. Colecionador de hits maravilhosos nos dourados anos 60, I Heard it Through the Grapevine, Ain't no Mountain High Enough, e vários outros clássicos, Marvin entrou a década de 70 querendo se colocar à prova não como hitmaker, mas como artista. Tinha a ambição de criar um álbum conceitual de soul music que falasse sobre o mundo ao redor. O irmão de Marvin havia regressado da guerra do Vietnã e, em longas conversas, os dois se instigaram a tentar entender o que fora feito do sonho americano. O primeiro título pensado para essa obra foi "Me Against the Man", mas ao passo que as canções surgiam, Marvin percebeu sentimentos muito mais complexos e profundos do que a raiva e a pergunta "O que está acontecendo?" é que realmente borbulhava dentro de sua mente. Marvin pensava ser aquele o momento exato de se falar sobre pobreza, desemprego, violência urbana e brutalidade, mas trazendo a redenção através do amor e da fé, dicotomia que iria margear toda sua obra, principalmente se compararmos este álbum (cheio do amor humano, universal e até mesmo puro e divino) com o seguinte, Let's Get it On (cheio do amor carnal, sensual, terreno).
Berry Gordy, dono da gravadora Motown, não queria lançar o primeiro single e o álbum, homônimos, por considerá-los complexos e anti-comerciais. A insistência e o espírito visionário de Marvin fizeram com que essa obra fosse não apenas o álbum mais vendido na história da gravadora, mas o cartão de visitas em termos de excelência em concepção, composição e performance e, até mesmo em engenharia de som, também revolucionária para a época.
"What's Going On", a faixa-título e primeiro single retirado do álbum é a mais bela canção de protesto de todas, aliás, é a canção que trouxe beleza ao protesto (ou vice-versa). A sensação de pessoas sendo separadas pela guerra, por brutalidade, por intolerância, tudo numa orquestração hipnótica e percussões que pontuam, junto aos backing vocals, a dor de um artista que havia perdido sua melhor parceira de duetos (Tammi Terrell), a desintegração de um casamento (com Anna Gordy), a volta do irmão Frank do combate no Vietnã, tudo isso e muito mais você sente naquela voz, naquela letra e quando ele diz brother, brother você sabe que ele está falando não com Frank, mas com toda a humanidade. Ele não quer apenas propor uma questão, ele quer realmente respondê-la, porque são muitas mães chorando, muitos irmãos morrendo e só o amor pode combater o ódio. O vocal traz angústia e sofrimento nas palavras, mas o que se ouve vindo de dentro daquela voz é uma sabedoria e uma calma, como se Marvin fosse um grande monge que tem a coragem de dizer "fale comigo e então você poderá ver o que está acontecendo", uma frase totalmente implausível de ser cantada por qualquer um. Está tudo aqui, do movimento pelos direitos civis dos negros até aquela angústia que você não consegue dar um nome, e que você sente sozinho no escuro do seu quarto: para todos, em todas as situações, é que esta maravilhosa canção foi doada, mais do que escrita. O fato de algo tão superior ter sido número um nas paradas de R&B naquele incrível ano de 1971 não diz nada e diz muita coisa ao mesmo tempo.
A pergunta continua em "What's Happening Brother?", o artista realmente quer saber quando as pessoas vão voltar a ficar juntas novamente. Existe algo do John Lennon pacifista em Marvin, mas ao mesmo tempo, são modus operandi tão distintos desses dois gênios. O Reverendo Jesse Jackson, fã declarado de Marvin Gaye, dizia que a energia espiritual em um show de Marvin era muito similar a um culto, e que a presença do artista no palco tinha a autoridade e a vibração de um grande pastor negro. Mas a pregação nesta segunda faixa do álbum é aquela que traz à tona a dificuldade de se encontrar emprego num mundo materialista em que o dinheiro está cada vez mais escasso.
"Flying High (In the Friendly Sky)", começa a trazer para as perguntas e respostas o nome do Senhor, aliás as palavras Lord ou God começam a aparecer aqui e reaparecem em todas as demais faixas. Um pouco sugerido pelo título, um tanto pelo próprio andamento complexo e meio zen da canção, sentimo-nos como se transportados para alguma nuvem, chorando junto do poeta a estupidez da violência, da escravidão e da auto-destruição. Mas é a terceira de nove canções hipnóticas e agora decidimos obedecer seu chamado para voarmos alto sem que precisemos realmente tirar os pés do chão.
Quarta faixa, quarto single extraído do álbum (e único que não atingiu o primeiro posto nas paradas), "Save the Children", é um poema impressionista em que Marvin declama e canta em canais diferentes (overdubs), o que traz uma carga emocional às várias perguntas e respostas, agora extremamente diretas, que o autor faz em relação ao futuro da humanidade, ou seja, as crianças, ele quase que obriga o ouvinte a responder e a se comprometer com tudo o que é dito ali. É uma balada ou uma canção gospel? Quem se importa? Quem realmente quer mudar o mundo? Porque é isso que importa, uma vez que as criancinhas de hoje vão sofrer muito amanhã quando flores não crescerão e sinos não tocarão. É muito forte o final da canção em que Marvin pede, clama, implora, quase que nos obriga a salvarmos os bebês. Mãos deslizam por um piano e o que parecia gospel agora se assume por inteiro. "God is Love", desde o título diz a que veio. Uma canção simples e curta, quase que uma ponte entre duas faixas de teor emocional muito forte, aqui o pregador se coloca na posição humilde de reconhecer a única saída nAquele que fez tudo, que nos deu tudo, que perdoa nossos pecados. Quando termina a canção, e devo lembrar que todas as canções neste álbum são interligadas sem pausa entre uma e outra, Marvin diz que quando pedimos misericórdia ao Pai, Ele nos dá, e cria assim a mais bela passagem de uma canção para outra, porque se inicia uma das mais belas orações cantadas que é "Mercy Mercy Me (The Ecology)", onde muitos anos antes de o tema virar modismo e eco-chatice, Marvin se usa de sua exuberante musicalidade para, dentro de uma melodia assustadoramente bela, pedir perdão a Deus por tudo de ruim que temos feito a um dos presentes mais importantes que Ele nos deu, que é essa casa onde moramos, esse planeta. Aqui não é o ecologista nerd didático a que estamos acostumados nas últimas décadas, mas o artista verdadeiro que não pede que você feche a torneira e sim que abra a mente e o coração. Musicalmente o que temos é um andamento nada convencional e a instrumentação ao mesmo tempo cheia de camadas e texturas, mas que nunca poluem o todo, backing vocals que parecem anjos, sério mesmo, anjos. Um vocal cheio de desilusão e piedade por humanos tão imbecis que somos e de repente um solo de saxofone em meio ao piano e aos anjos e nós nos sentimos comprometidos e arrependidos de verdade, sem panfletagem ou algo do gênero. Segundo single do álbum, e segundo a alcançar o primeiro lugar na parada R&B.
O lado B do vinil começa (o CD apenas continua) com "Right On", uma longa canção que nos faz dançar e pensar sobre as desigualdades, econômicas, raciais, mas que a costura magnífica da letra e da música em si, nos leva ao entendimento de que onde quer que você esteja nessa maluca cadeia social, seja você rico, pobre, feliz ou deprimido, todos necessitamos do orgulho de Deus, pra quem devemos dizer Right On, e precisamos amar o amor de Deus por nossos irmãos, o amor puro. Distribua amor e você encontrará a paz sublime. Tudo isso soaria tão brega na voz de alguém que tivesse apenas boa intenção, mas não muito talento e profundidade de alma, mas é inegável o fato de que temos realmente muito pouca coisa a admitir para poder viver com dignidade em relação a nós mesmos e esses visionários apenas estão lá para nos ajudar a falar o que já sabemos com Aquele que nós já sabemos que é quem nos ouve.
"Wholy Holy", uma pequena canção gospel, cantada inclusive em igrejas pelos Estados Unidos fala sobre o retorno de Jesus, sobre o Livro que ele nos deixou para que crêssemos nele. Há um otimismo contagiante em sua voz quando ele nos convence de que iremos de verdade mexer com as estruturas do mundo e vamos vencer o ódio.
Esse álbum iluminado termina com "Inner City Blues (Make me Wanna Holler)", terceiro single lançado e terceiro número 1 (feito nunca antes visto num álbum de R&B e apenas repetido 12 anos depois com Thriller, do Michael Jackson). Inner City Blues traz de volta a raiva e a dor com que havia começado o álbum neste precursor das canções de blaxpoitation, neste casulo do que Curtis Mayfield e Stevie Wonder, também magistralmente, passariam a fazer no ano seguinte. Aqui o pregador dá lugar ao artista revoltado e terreno que fala sobre inflação, desemprego, finanças, foguetes, contas a pagar em cima da mesa, vamos mandar o garoto para a guerra, não podemos pagar os impostos, o crime está crescendo, a polícia atira, o pânico se espalha e só Deus sabe para onde estamos indo. O baixo de James Jamerson (instituição quando se fala em baixo e soul music) é intoxicante e deságua no piano do próprio Marvin que nos traz ao tema da faixa inicial onde, repetindo frases cantadas lá, o soulman fala com sua mãe e diz que todos pensam que eles (Marvin e sua mãe) estão errados. Mas quem são eles para julgar-nos, ele fala. Quem somos nós para não ouvirmos o que esta obra tão importante, tão fundamental, tão profunda, tem a perguntar e a responder por nós e conosco.
O que está acontecendo? Por que as pessoas não estão entendendo o que Marvin diz?

domingo, 6 de junho de 2010

OS MAIORES HITS R&B DE 1953



O R&B já existia desde, pelo menos, a metade da década de 40, mas foi nos anos 50 que ele tomou de assalto o mundo, não apenas para produzir hits, mas para criar de suas entranhas o doo-wop, o rock'n'roll e a soul music e ser, assim, o ritmo musical mais influente do século XX. 1953 foi um ano importante para a história da música negra não porque foi propriamente o início de um movimento ou algo que o valha, mas porque foi quando a quantidade e a qualidade começaram a se encontrar e tudo que se passou a ouvir a partir de então já estava lá nos vários nascedouros espalhados por gravadoras de todos os EUA que produziam, agora quase que em massa, produtos para uma juventude que se mostrava extremamente aberta e interessada. Costuma-se dizer que os anos 50 e o rock'n'roll inventaram a juventude. Aqui listo os mais importantes singles daquele ano, espero que tenham curiosidade e espírito aberto para procurá-los por aí e espero que curtam muito. São obras de uma só vez atemporais e significativas daquela época, e são, sobretudo, canções deliciosas.

1. "HOUND DOG", com Big Mama Thornton.
A grande Mama Thornton, grande em ambos os sentidos, trabalhou aqui com o que dizem que Elvis inventou dois ou três anos depois. O garoto de Memphis merece todo nosso respeito, mas sua versão é polida demais se comparada a essa pérola bruta, dessa que é mais convincentemente uma canção feita para uma mulher cantar. De qualquer forma, um clássico absoluto em ambas as versões e a fotografia da transformação do R&B naquilo que chamariam de rock'n'roll. E os berros e latidos de Big Mama são um bônus irrecusável.

2. "MESS AROUND", com Ray Charles.
O primeiro single de sucesso de um dos mais importantes artistas americanos de todos os tempos. O pai da soul music nos traz aqui uma simples canção festiva apenas como um divertido petisco antes da verdadeira revolução que ele começaria no ano seguinte com I've Got a Woman, onde misturou gospel e R&B e, às custas de ser condenado ao inferno, praticamente criou a soul music aqui na Terra. Mas como todo mundo fazia o Mess Around naquele ano, ficamos pra sempre com um delicioso piano boogie-woogie e aquela voz maravilhosa nos transportando a mundos e épocas muito legais.

3. "(MAMA) HE TREATS YOUR DAUGHTER MEAN", com Ruth Brown.
Assim como o single acima, outra pérola produzida na Atlantic Records do turco Ahmet Ertegun, esse importante e delicioso artefato marcou história e é tido por muita gente bacana como o grande crossover que criou e esfregou na cara do mundo o que tiveram que dar um nome, esse tal de rock'n'roll. A canção, todavia, não é peça de museu como o início de várias outras correntes musicais, é, isso sim, a mais sexy, divertida e esperta canção daquele ano. O branco e o negro começam a se juntar na música americana e lá está Ruth Brown delatando o marido malvado para a sogra dele.

4. "GEE", com o grupo The Crows.
O doo-wop já estava nascido, mas apenas como um pássaro recém-saído de um ovo, claudicante e abrindo os olhos na virada dos 40 para os 50. É neste single contagiante que vemos esse pássaro alçar seu primeiro voo. Não por coincidência os nomes das bandas de doo-wop em geral eram nomes de pássaros. Os vocais eram, como seria praxe entre eles, um primor absoluto de energia e técnica, mas há que se ressaltar um absurdamente moderno solo de guitarra com toques de jazz de Tiny Grimes. O doo-wop nos daria em seus dez anos de vida canções mais belas e mais importantes, mas é aqui que o pop negro se viu no espelho e gostou de sua perfeição.

5. "MONEY HONEY", com o grupo The Drifters.
O primeiro sucesso de uma banda bastante influente que ainda nos daria as maravilhosas carreiras solo de Clyde McPhatter, Ben E. King e Bobbie Hendricks. Essa também influente canção bebeu das misturas entre o nascente doo-wop com a country music e o R&B puro. Ter sido cantada por Elvis e Beatles anos depois apenas sugere que havia um lago onde aqueles deuses se banharam e que também nós, meros mortais, podemos ir lá de vez em quando. Um dos melhores singles de todos os tempos, com o maravilhoso vocal de McPhatter.

6. "SOUL ON FIRE", com LaVern Baker.
Outra vez Atlantic Records, outra cantora, agora no que talvez seja a primeira de uma longa e maravilhosa lista daquilo que virou quase que uma instituição americana: a balada soul. LaVern Baker e seu maravilhoso grupo trazem aquela luminosidade, aquele calor das músicas lentas dos negros que sabiam misturar elegância e sofisticação com pura simplicidade e discurso direto. A alma queimando no fogo ao som das arrepiantes divisões silábicas de Miss Baker.

7. "CRYING IN THE CHAPPEL", com o grupo The Orioles.
O grupo The Orioles já vinha colecionando sucessos desde a década anterior, mas foi com esse doo-wop gospel que eles alcançaram seu ponto máximo. Uma canção tranquila e ao mesmo tempo fervorosa passada numa capela que nos traz toda a espiritualidade da música negra pré-R&B, mas num vocal então contemporâneo. A canção foi regravada por Elvis doze anos depois no que é, para muitos e humildemente para esse que vos escreve, a versão definitiva, uma vez que traz todo o fervor do rei do rock numa época em que este flertava com a música cristã. Leve seus problemas para a capela, dobre os joelhos e ore.

8. "HONEY HUSH", com Big Joe Turner.
Mais um Big nessa lista, agora aquele que veio do blues para o R&B e para a história. Uma voz realmente poderosa, com uma banda matadora. Honey Hush é repleta de humor e malícia, Big Joe fazendo as vezes de um cara insensível falando com sua garota, dizendo que não se deixa levar por suas lágrimas. A voz cheia de personalidade, o swing meio jazzy de toda a banda e um solo de sax, muitas coisas para curtir nesse clássico e Big Joe entraria para a história no ano seguinte com Shake, Rattle and Roll, mas isso já é outra postagem.

9. "GOING TO THE RIVER", com Fats Domino.
Diretamente de New Orleans, o homem gordo com cara de gato Fats Domino e um single tão delicioso, tão blues, tão Mardi Gras, que parece uma cápsula onde a gente pode entrar e morar lá dentro. Grande pianista, grande cantor, um dos maiores compositores da década e um dos primeiros negros a cruzar da parada R&B para a pop, em 50 com Fat Man e em 53 com esse clássico e muitas vezes depois. Se o rock'n'roll não fosse o bastardo que foi, com o pai mais ignorado da história, eu diria para coletarem o DNA desse cara. Pra mim, ele é o pai.

10. "A SUNDAY KIND OF LOVE", com o grupo The Harptones.
Sofisticação e doo-wop. Uma introdução com um órgão de igreja e somos carregados para um mundo de sonhos nessa canção que, ao contrário das anteriores aqui, não foi propriamente um hit. Os Harptones de Nova Iorque traziam uma influência do jazz para o seu doo-wop e, mesmo não tendo vendido muito na época, por conta de uma pequena gravadora e débil distribuição, foram influentes sobre o que viria a seguir, garantindo seu lugar na história e nessa lista. E a canção é belíssima, com um arranjo vocal imaculado.

11. "GOLDEN TEARDROPS", com o grupo The Flamingos.
Outro single que não foi exatamente um hit na época, mas que, relançado cinco anos depois encontrou seus amantes no já consolidado mundo do doo-wop. Trata-se aqui de uma atmosférica canção que sobreviveu ao tempo, marco inicial daquela que talvez foi a maior banda de doo-wop, responsável pelo maior clássico do movimento, I Only Have Eyes for You, anos depois.

Quem não entende nada de música geralmente só sabe julgar a produção ou a engenharia de som de uma canção, em poucas palavras se ela parece "atual" ou "velha", como se apenas aí estivesse a possibilidade dela ser boa ou ruim, mas perde, assim, a deliciosa chance de encher sua alma com sentimentos e sensações tão indescritivelmente superiores ao que se pode ter quando miseravelmente atrelado apenas à arte, à literatura ou ao entretenimento momentâneo. O mundo, de qualquer forma, sempre foi árido de pessoas abertamente sensíveis e sempre será, pessoas sensíveis e inteligentes saboreiam o texto de Shakespeare, os outros prestam atenção no figurino e nos cortes de cabelo do elenco. Quando saem do teatro, aqueles são tocados pela verdadeira arte humana do bardo inglês, os outros querem apenas comer um hamburger que não tenha sido feito em 1616. Se você conhece alguém que tem problemas com filmes em preto e branco, gravações musicais dos anos 40 e 50, peças e obras dos séculos passados, sinta pena. Pena é melhor que ódio.

terça-feira, 1 de junho de 2010

ÁLBUNS CLÁSSICOS DO R& B Nº 1 - INNERVISIONS (1973) - STEVIE WONDER



Rhythm & Blues. Anos 70. A perda da inocência diante de um mundo corroído por drogas, sexo, políticos sujos e espiritualistas gananciosos. Não muito diferente do que vivemos hoje em dia, não é mesmo? A grande diferença é que naqueles tempos existia um jovem cego visionário (cego visionário?!) chamado Stevie e, acreditem, ninguém olhou tão bem para o futuro quanto ele neste disco. "Too High" fala sobre o "paraíso superficial" de drogados em frente a TV falando besteiras até que a menina morre e seu namorado apenas sabe dizer que ela estava alta demais, os sintetizadores e o andamento complexo de uma linha de baixo fantástica tornam este lamento muito mais frenético do que propriamente triste. Em "Visions", agora sim uma triste balada pontuada por um violão, Stevie pergunta se pode existir um lugar realmente lindo ou se temos que bater nossas asas e voar para as visões em nossas mentes. O escapismo dos verdadeiros artistas aqui confrontado dentro de uma obra que nos expõe e nos propõe, afinal ele diz que sabe "que as folhas são verdes, elas apenas mudam pro marrom quando o outono chega". É chegado o momento do mini-épico funky "Living for the City", clássico single que alcançou os primeiros postos das paradas da Billboard, em que o autor narra a história de um menino pobre nascido no Mississipi descrevendo cada membro de sua família, cada chaga aberta nas feridas de ser negro e pobre e sua ida a Nova York, seu desespero, desemprego e desvio. Um clássico absoluto com os teclados e vocais mais contagiantes já ouvidos. "Golden Lady" nos traz do abismo das realidades urbanas direto para os braços de uma dama dourada com um toque de chuva e raios de sol que fazem todas as flores crescerem num sorriso. Contagiante e hipnótica, essa canção nos dá alento e conforto na ideia que temos de que o amor nos salva, nos pacifica. "Higher Ground", outro single número um nas paradas, é uma poderosíssima chamada de consciência para que todos façamos nossa parte nessa tapeçaria social já que Ele (você sabe quem é Ele, não sabe?) nos deixou tentar de novo. Uma das canções mais marcantes de sua carreira diz que Deus, que é seu único e verdadeiro amigo, vai mostrar a você as alturas. Poderia ser só uma canção gospel imbecil como essas que nos perseguem por aí, mas é produto de uma sensibilidade superior que pode até se dar ao luxo de falar sobre o divino, por ser ele próprio instrumento do divino. "Jesus Children of America", mesmerizantemente funky abre com um Hello Jesus para falar diretamente com Ele sobre a falta de fé e espiritualidade ao redor. "All in Love is Fair", uma convencional balada para voz e piano, mas que o absurdamente emocionado vocal de Stevie trata de elevar a esferas celestiais, nos jogando naquele mundo de relacionamentos desfeitos que nos deixam cicatrizes com as quais temos que conviver mas que ele, como um escritor, pode pegar sua caneta novamente para limpar suas tristezas em palavras e em sons. "Don't You Worry 'Bout a Thing", uma leitura pessoal de ritmos latinos como a salsa, nos faz lembrar do interesse sempre recorrente de Stevie pelas culturas estrangeiras e sua capacidade ímpar de romper barreiras geográficas ou musicais. Nesta canção alegre e otimista, Stevie como um irmão mais velho, nos diz para não nos preocuparmos tanto, que há sempre a chance de mudarmos e que ele estará do nosso lado. Não se trata de calma depois da tormenta. Neste disco, não há tormentas e não há calma, apenas lucidez e talento. Este disco clássico se encerra com a faixa "He's Misstra Know It All", denunciando a falta de ética na política, a destruição das esperanças populares e usando o exemplo Nixon da época para falar de algo muito mais frequente e universal que é a corrupção espiritual que leva a todas as outras corrupções. Baladas soul de arrepiar, canções funky cheias de ginga, flertes com latinidades e sintetizadores. Letras de um talentoso poder narrativo chegam por meio da voz incomparável de um cantor que podia fazer firulas vocais sem nunca parecer um palhaço mecânico como vários de seus imitadores nas décadas seguintes. Ao contrário, quando essa voz nos chega, vem com a autoridade não apenas de um gênio da música negra, mas de um porta-voz de todos nós, alguém que pode denunciar desde pequenos traficantes até o próprio Presidente Nixon. Quincy Jones uma vez disse sobre Stevie que era a alma mais pura e doce que ele havia conhecido. Doce sim, mas com a crítica cortante de um artista que sofre por todos. De qualquer forma, estamos falando em R & B, e aqui o sofrimento não é algo cheio de pose como a música branca pós-80, mas sim um sem-número de constatações e contestações que nos deixam no fim com uma real e nem um pouco idiota sensação de otimismo. Afinal, um mundo onde um ser humano é capaz de compor, cantar e tocar todos os instrumentos em um disco como Innervisions não pode ser um lugar tão ruim assim.