
Considerado por muitos o melhor álbum de todos os tempos, What's Going On é daqueles queridinhos da crítica que sempre, desde o lançamento, também encontraram ressonância comercial. Um divisor de águas na história da música, esta obra-prima de Marvin Gaye não apenas é capaz de tocar corações e mentes de todo o planeta, mas também resiste ao tempo e, mais ainda, usa do decurso do tempo para crescer e envelhecer como um vinho, o melhor vinho que nós nunca realmente beberemos por inteiro.
Marvin Gaye vinha de uma carreira extremamente bem-sucedida mas que, àquela época, havia se tornado um pouco anacrônica e obsoleta. Colecionador de hits maravilhosos nos dourados anos 60, I Heard it Through the Grapevine, Ain't no Mountain High Enough, e vários outros clássicos, Marvin entrou a década de 70 querendo se colocar à prova não como hitmaker, mas como artista. Tinha a ambição de criar um álbum conceitual de soul music que falasse sobre o mundo ao redor. O irmão de Marvin havia regressado da guerra do Vietnã e, em longas conversas, os dois se instigaram a tentar entender o que fora feito do sonho americano. O primeiro título pensado para essa obra foi "Me Against the Man", mas ao passo que as canções surgiam, Marvin percebeu sentimentos muito mais complexos e profundos do que a raiva e a pergunta "O que está acontecendo?" é que realmente borbulhava dentro de sua mente. Marvin pensava ser aquele o momento exato de se falar sobre pobreza, desemprego, violência urbana e brutalidade, mas trazendo a redenção através do amor e da fé, dicotomia que iria margear toda sua obra, principalmente se compararmos este álbum (cheio do amor humano, universal e até mesmo puro e divino) com o seguinte, Let's Get it On (cheio do amor carnal, sensual, terreno).
Berry Gordy, dono da gravadora Motown, não queria lançar o primeiro single e o álbum, homônimos, por considerá-los complexos e anti-comerciais. A insistência e o espírito visionário de Marvin fizeram com que essa obra fosse não apenas o álbum mais vendido na história da gravadora, mas o cartão de visitas em termos de excelência em concepção, composição e performance e, até mesmo em engenharia de som, também revolucionária para a época.
"What's Going On", a faixa-título e primeiro single retirado do álbum é a mais bela canção de protesto de todas, aliás, é a canção que trouxe beleza ao protesto (ou vice-versa). A sensação de pessoas sendo separadas pela guerra, por brutalidade, por intolerância, tudo numa orquestração hipnótica e percussões que pontuam, junto aos backing vocals, a dor de um artista que havia perdido sua melhor parceira de duetos (Tammi Terrell), a desintegração de um casamento (com Anna Gordy), a volta do irmão Frank do combate no Vietnã, tudo isso e muito mais você sente naquela voz, naquela letra e quando ele diz brother, brother você sabe que ele está falando não com Frank, mas com toda a humanidade. Ele não quer apenas propor uma questão, ele quer realmente respondê-la, porque são muitas mães chorando, muitos irmãos morrendo e só o amor pode combater o ódio. O vocal traz angústia e sofrimento nas palavras, mas o que se ouve vindo de dentro daquela voz é uma sabedoria e uma calma, como se Marvin fosse um grande monge que tem a coragem de dizer "fale comigo e então você poderá ver o que está acontecendo", uma frase totalmente implausível de ser cantada por qualquer um. Está tudo aqui, do movimento pelos direitos civis dos negros até aquela angústia que você não consegue dar um nome, e que você sente sozinho no escuro do seu quarto: para todos, em todas as situações, é que esta maravilhosa canção foi doada, mais do que escrita. O fato de algo tão superior ter sido número um nas paradas de R&B naquele incrível ano de 1971 não diz nada e diz muita coisa ao mesmo tempo.
A pergunta continua em "What's Happening Brother?", o artista realmente quer saber quando as pessoas vão voltar a ficar juntas novamente. Existe algo do John Lennon pacifista em Marvin, mas ao mesmo tempo, são modus operandi tão distintos desses dois gênios. O Reverendo Jesse Jackson, fã declarado de Marvin Gaye, dizia que a energia espiritual em um show de Marvin era muito similar a um culto, e que a presença do artista no palco tinha a autoridade e a vibração de um grande pastor negro. Mas a pregação nesta segunda faixa do álbum é aquela que traz à tona a dificuldade de se encontrar emprego num mundo materialista em que o dinheiro está cada vez mais escasso.
"Flying High (In the Friendly Sky)", começa a trazer para as perguntas e respostas o nome do Senhor, aliás as palavras Lord ou God começam a aparecer aqui e reaparecem em todas as demais faixas. Um pouco sugerido pelo título, um tanto pelo próprio andamento complexo e meio zen da canção, sentimo-nos como se transportados para alguma nuvem, chorando junto do poeta a estupidez da violência, da escravidão e da auto-destruição. Mas é a terceira de nove canções hipnóticas e agora decidimos obedecer seu chamado para voarmos alto sem que precisemos realmente tirar os pés do chão.
Quarta faixa, quarto single extraído do álbum (e único que não atingiu o primeiro posto nas paradas), "Save the Children", é um poema impressionista em que Marvin declama e canta em canais diferentes (overdubs), o que traz uma carga emocional às várias perguntas e respostas, agora extremamente diretas, que o autor faz em relação ao futuro da humanidade, ou seja, as crianças, ele quase que obriga o ouvinte a responder e a se comprometer com tudo o que é dito ali. É uma balada ou uma canção gospel? Quem se importa? Quem realmente quer mudar o mundo? Porque é isso que importa, uma vez que as criancinhas de hoje vão sofrer muito amanhã quando flores não crescerão e sinos não tocarão. É muito forte o final da canção em que Marvin pede, clama, implora, quase que nos obriga a salvarmos os bebês. Mãos deslizam por um piano e o que parecia gospel agora se assume por inteiro. "God is Love", desde o título diz a que veio. Uma canção simples e curta, quase que uma ponte entre duas faixas de teor emocional muito forte, aqui o pregador se coloca na posição humilde de reconhecer a única saída nAquele que fez tudo, que nos deu tudo, que perdoa nossos pecados. Quando termina a canção, e devo lembrar que todas as canções neste álbum são interligadas sem pausa entre uma e outra, Marvin diz que quando pedimos misericórdia ao Pai, Ele nos dá, e cria assim a mais bela passagem de uma canção para outra, porque se inicia uma das mais belas orações cantadas que é "Mercy Mercy Me (The Ecology)", onde muitos anos antes de o tema virar modismo e eco-chatice, Marvin se usa de sua exuberante musicalidade para, dentro de uma melodia assustadoramente bela, pedir perdão a Deus por tudo de ruim que temos feito a um dos presentes mais importantes que Ele nos deu, que é essa casa onde moramos, esse planeta. Aqui não é o ecologista nerd didático a que estamos acostumados nas últimas décadas, mas o artista verdadeiro que não pede que você feche a torneira e sim que abra a mente e o coração. Musicalmente o que temos é um andamento nada convencional e a instrumentação ao mesmo tempo cheia de camadas e texturas, mas que nunca poluem o todo, backing vocals que parecem anjos, sério mesmo, anjos. Um vocal cheio de desilusão e piedade por humanos tão imbecis que somos e de repente um solo de saxofone em meio ao piano e aos anjos e nós nos sentimos comprometidos e arrependidos de verdade, sem panfletagem ou algo do gênero. Segundo single do álbum, e segundo a alcançar o primeiro lugar na parada R&B.
O lado B do vinil começa (o CD apenas continua) com "Right On", uma longa canção que nos faz dançar e pensar sobre as desigualdades, econômicas, raciais, mas que a costura magnífica da letra e da música em si, nos leva ao entendimento de que onde quer que você esteja nessa maluca cadeia social, seja você rico, pobre, feliz ou deprimido, todos necessitamos do orgulho de Deus, pra quem devemos dizer Right On, e precisamos amar o amor de Deus por nossos irmãos, o amor puro. Distribua amor e você encontrará a paz sublime. Tudo isso soaria tão brega na voz de alguém que tivesse apenas boa intenção, mas não muito talento e profundidade de alma, mas é inegável o fato de que temos realmente muito pouca coisa a admitir para poder viver com dignidade em relação a nós mesmos e esses visionários apenas estão lá para nos ajudar a falar o que já sabemos com Aquele que nós já sabemos que é quem nos ouve.
"Wholy Holy", uma pequena canção gospel, cantada inclusive em igrejas pelos Estados Unidos fala sobre o retorno de Jesus, sobre o Livro que ele nos deixou para que crêssemos nele. Há um otimismo contagiante em sua voz quando ele nos convence de que iremos de verdade mexer com as estruturas do mundo e vamos vencer o ódio.
Esse álbum iluminado termina com "Inner City Blues (Make me Wanna Holler)", terceiro single lançado e terceiro número 1 (feito nunca antes visto num álbum de R&B e apenas repetido 12 anos depois com Thriller, do Michael Jackson). Inner City Blues traz de volta a raiva e a dor com que havia começado o álbum neste precursor das canções de blaxpoitation, neste casulo do que Curtis Mayfield e Stevie Wonder, também magistralmente, passariam a fazer no ano seguinte. Aqui o pregador dá lugar ao artista revoltado e terreno que fala sobre inflação, desemprego, finanças, foguetes, contas a pagar em cima da mesa, vamos mandar o garoto para a guerra, não podemos pagar os impostos, o crime está crescendo, a polícia atira, o pânico se espalha e só Deus sabe para onde estamos indo. O baixo de James Jamerson (instituição quando se fala em baixo e soul music) é intoxicante e deságua no piano do próprio Marvin que nos traz ao tema da faixa inicial onde, repetindo frases cantadas lá, o soulman fala com sua mãe e diz que todos pensam que eles (Marvin e sua mãe) estão errados. Mas quem são eles para julgar-nos, ele fala. Quem somos nós para não ouvirmos o que esta obra tão importante, tão fundamental, tão profunda, tem a perguntar e a responder por nós e conosco.
O que está acontecendo? Por que as pessoas não estão entendendo o que Marvin diz?
Nenhum comentário:
Postar um comentário